SOBRE CONSELHOS NA EMIGRAÇÃO
- há 3 dias
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Todo conselho fala mais sobre quem aconselha do que sobre quem o recebe
Sobre conselhos, já vi de tudo. Há um ditado popular que diz que, se o conselho fosse bom, seria vendido. Curiosamente, hoje ele ganhou novos nomes e novas embalagens: mentorias, consultorias, coaching e tantos outros formatos.
Quando a orientação vem de um amigo próximo, tendemos a acolhê-la quase sem questionar. Há pessoas que passam a vida vagueando sem rumo porque seguem as opiniões de quem está ao seu redor e se esquecem de consultar a pessoa mais importante nessa decisão: elas próprias. Esquecem-se de fazer as perguntas indispensáveis para construir o caminho que realmente desejam percorrer.
Fala-se muito em propósito. Tornou-se um conceito quase obrigatório, e confesso que concordo com a importância que lhe atribuem.
Mas onde está o perigo dos conselhos? Por que devemos recebê-los com prudência?
A resposta está, muitas vezes, naquilo que o próprio conselheiro desconhece sobre si. Cada conselho nasce de um lugar muito particular: do seu inconsciente, das suas experiências, das suas frustrações, dos seus medos, das suas relações passadas, da forma como se vê e da história que carrega desde a infância. Em outras palavras, antes de falar da sua vida, o conselho costuma falar da vida de quem o oferece.
Há ainda outro problema. Poucas pessoas conseguem, de facto, calçar os sapatos do outro. É raro alguém conseguir abandonar as próprias referências e mergulhar verdadeiramente nas circunstâncias daquele que procura orientação. Como escutam pouco, acabam por interpretar muito. E, sem perceberem, olham a vida do outro através das lentes da sua própria história.
Em alguns casos, a situação torna-se ainda mais delicada. Quem não realizou um sonho pode sentir, ainda que inconscientemente, um desconforto ao ver outra pessoa prestes a realizá-lo. Em situações mais graves, esse sentimento deixa de ser apenas inconsciente. A inveja, o ressentimento ou o medo da comparação podem levá-lo a desencorajar justamente aquilo que nunca teve coragem de fazer.
Pode ser uma nova relação, a reconstrução de um casamento, uma viagem, uma mudança de cidade, um novo emprego ou uma decisão de emigrar. Convivo frequentemente com isso. Conheço pessoas que passaram décadas dizendo que gostariam de deixar a cidade onde vivem e, no entanto, fizeram de tudo para impedir que um irmão, uma irmã ou um amigo desse esse passo.
Talvez exista, então, uma pergunta ainda mais importante do que todas as outras: o que o conselheiro perde se eu seguir em frente? Muitas vezes, a resposta a essa pergunta explica o conselho melhor do que o próprio conselho.
Termino com um alerta — e, propositadamente, não o chamarei de conselho.
Quando ouvir a opinião de um amigo genuíno, não a rejeite. Analise-a. Procure perceber quanto daquela orientação nasce da sua experiência e quanto nasce das limitações, dos medos e das oportunidades que ele próprio não viveu. Um verdadeiro amigo dificilmente desejará prejudicá-lo de forma consciente, mas nem por isso deixa de ser humano. O seu inconsciente também fala.
Ouça os outros. Mas, antes de decidir, ouça-se a si mesmo. Talvez essa seja a voz que melhor conhece o caminho que pretende seguir.
[22:10, 16/07/2026] Renato Leal: Escrevi após algumas experiências com maus conselheiros em processos de emigração. Mas isso não é só para emigração
Renato Leal
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